A Revista InForMar entrevista o Prof. Bruno Castello da Costa

Revista Eletrônica InForMar

(edição no.18, Julho 2013)
por Instituto Mar Adentro
Figura 1 - Capa.

Figura 1 – Capa.

Bruno Castello da Costa é engenheiro de produção, professor e pesquisador em Pedagogia do Surfe, engajado na promoção da Educação em atividades no Mar e em sua inserção nos programas brasileiros de Educação Física nas escolas.

InForMar – Você poderia nos contar um pouco sobre sua pesquisa para a elaboração de seu livro “Conscientização Orientada da Prática do Surfe”?

Bruno Castello – A princípio, a ideia era elaborar um manual para orientar as minhas aulas. Entretanto, à medida que escrevia, fui percebendo que valeria à pena esforçar-me um pouco mais, investindo mais tempo, convidando outros autores e buscando um direcionamento científico. Queria também que o resultado final fosse bilíngue, português-inglês, com vistas a viabilizar sua divulgação igualmente para interessados no exterior.

Após um período ensinando na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, fui investigar as escolinhas de Surfe no Havaí, onde já havia vivido durante algum tempo. Pensava que assim encontraria formas mais apropriadas para o ensino do esporte, em relação àquelas com as quais já estava acostumado.

Até então, parecia-me que as escolinhas de surfe que conhecia acabavam criando vivências que em nada se assemelhavam às lembranças do meu tempo de aprendiz. Tinha a impressão que a segurança dos alunos era constantemente ameaçada, pois os mesmos não aparentavam estar preparados para enfrentar situações adversas com as quais se deparavam. Além disso, achava difícil que aquelas experiências tivessem muito a lhes oferecer, em termos de favorecer a construção do seu conhecimento e desempenho no esporte.

Para minha surpresa, pude constatar que as escolinhas havaianas adotavam as mesmas essências seguidas pelas da Barra da Tijuca, o que me causou uma certa frustração. Por outro lado, essa temporada no Havaí me reservou algumas surpresas que, mais tarde, se revelariam vitais para o despertar da nova concepção de ensino que eu tanto buscava.

Em suma, depois de muita pesquisa, posso dizer que nadadores habituados à zona de arrebentação das ondas estão claramente um passo à frente na prática do esporte, e que isso deve ser levado em consideração quando do planejamento do aprendizado.

Figura 2 - Sumário.

Figura 2 – Sumário.

InForMar – O que o levou a querer realizar essa pesquisa?

Bruno Castello – Acredito que as pessoas devem aprender a identificar e lidar com os principais perigos presentes em um ambiente típico de praia, caso contrário, haverá sempre alguém correndo o risco, certamente desnecessário, de se machucar ou sofrer afogamento.

Se não tivesse tido a ideia desta pesquisa, talvez tivesse enveredado por alguma outra linha de investigação. Mas precisava escrever sobre esse assunto, e hoje vejo o trabalho desenvolvido como um marco para uma nova frente de pesquisa científica.

Mais detalhes podem ser observados na seção de artigos do Instituto Mar Adentro e em nosso website SurfingPedagogy.com.

InForMar – Conte-nos um pouco sobre sua trajetória como praticante do surfe.

Bruno Castello – Desde minhas primeiras lembranças, frequentava a praia todos os finais de semana. Um dia me chamou atenção a ilustração em uma revista contando a história de um marinheiro náufrago, durante a Guerra das Ilhas Malvinas, que precisou nadar por muitas horas até finalmente alcançar a costa da Argentina. Desde então passei a brincar com meus amigos na beira do mar, fingindo ser o tal náufrago, arrastando-me em busca de ajuda, e tendo que me esquivar de balas, granadas, arame farpado e trincheiras, depois de sofridas horas de uma quase infindável natação no mar. Eventualmente acabávamos migrando da recreação na praia para a prática do Bodyboarding. Alguns anos depois, seria a vez de trocarmos nossas pranchas de Morey Boogie por nossas primeiras pranchas de Surfe. Tão logo tive chance, comecei a surfar de pranchão, e posso dizer que foi amor à primeira vista. A partir de 2005, decidi me dedicar ao Surfe de Peito. Durante minha primeira temporada no Havaí, tive a chance de conhecer, acompanhar e aprender com alguns dos melhores bodysurfers brasileiros que vinham treinando no North Shore da ilha de Oahu. Além disso, na minha infância eu assistia com frequência aos guarda-vidas salvando banhistas e surfistas, se arriscando nos maiores mares que já havia presenciado. Portanto, creio que minha admiração pelo Surfe de Peito era algo que já trazia latente.

Resumindo a minha experiência: engenheiro de Produção e professor de Educação Física de formação, sou professor de Surfe desde 2005, com prática em Waikiki, Puaena Point e Makaha-Oahu, e em Pipeline no Havaí, e personal trainer. Também fui instrutor de apoio do 2o Grupamento Marítimo do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Além do trabalho de pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Biomecânica e Comportamento Motor do Instituto de Educação Física e Desportos da UERJ, atuo como consultor técnico pelo website SurfingPedagogy.com.

Figura 3 - Páginas 46 e 47.

Figura 3 – Páginas 46 e 47.

InForMar – Aos olhos de um surfista, como você poderia associar a importância de conhecer o mar e a vida marinha?

Bruno Castello – Muitas escolinhas de Surfe no Rio de Janeiro promovem e encorajam ações ecológicas entre os alunos e também com os banhistas em geral. Elas recolhem lixo, distribuem sacos para a sua coleta, organizam passeios e viagens de aventura a destinos de natureza plena, convidam profissionais de campos correlacionados, como a Biologia, a Oceanografia e as Engenharias, a apresentarem projetos como, por exemplo, de reciclagem de lixo e água, perpetuação de espécies animais em risco de extinção, e de manutenção e desenvolvimento de parques e reservas ambientais.

Nos últimos anos, o Rio pôde testemunhar surfistas, ambientalistas e outros simpatizantes engajados em ações de preservação da Natureza atuando ativamente para salvar duas de nossas últimas praias ainda selvagens (a Prainha e a Praia da Reserva) de interesses imobiliários, intensificados pela proximidade dos eventos massivos, como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas nos próximos anos.

Acredito que conhecer mais sobre as florestas e os oceanos, e sobre como a humanidade vem impactando a Natureza, ajuda a formar essa consciência de que também podemos fazer a nossa parte. Ainda que a caminhada pareça longa, se as pessoas pensarem mais no bem-estar coletivo, talvez haja uma chance de revertermos esse quadro que aí está.

InForMar – Quais dicas você poderia dar aos nossos leitores que gostariam de iniciar na prática do surfe?

Bruno Castello – Sugiro a prática regular de natação em um clube ou academia, onde as aulas possibilitem alcançar desempenhos de nível competitivo nos estilos crawl, peito e costas (saber nadar borboleta, ou golfinho, também seria bem-vindo, porém não julgo essencial para a atividade no mar).

Aconselho também a leitura do nosso livro “Conscientização Orientada da Prática do Surfe”, e que procurem se aprofundar mais no assunto. Para tal, ressalto alguns pontos importantes: (1) explorar as fontes e bibliografia complementar que apresentamos ao longo do livro; (2) buscar outras propostas, para que possam desenvolver sua própria opinião sobre a aprendizagem do Surfe; (3) sempre respeitar o mar, e que esse respeito seja bem traduzido pela incorporação de hábitos saudáveis às rotinas diárias (que poderão servir quando do enfrentamento de condições mais intensas de Surfe), tais como uma alimentação balanceada, sono suficiente e de qualidade, aprimoramento das habilidades de natação em zona de arrebentação, e desenvolvimento e manutenção de altos níveis de aptidão física; (4) praticar Surfe, em qualquer modalidade, sempre na companhia de outros surfistas, e preferencialmente dentro do campo de visão de um Guarda-vidas; (5) investir tempo observando – com atenção redobrada – surfistas experientes em ação, aprendendo com eles e, se possível, surfando em sua companhia; (6) jamais tentar apressar o processo de aprendizagem; (7) nunca enxergar a prancha como boia salva-vidas, nem confiar nas nadadeiras (“pés-de-pato”) como recurso de sobrevivência em mares bravios; (8) seguir o conselho que aprendi com a Associação de Guarda-vidas do North Shore no Havaí: se estiverem em dúvida, não entrem no mar.

FIgura 4 - Páginas 48 e 49.

FIgura 4 – Páginas 48 e 49.

InForMar – O que você espera na prática como resultado de sua pesquisa, e qual será seu próximo passo?

Bruno Castello – Com uma parcela tão significativa da população vivendo no litoral, parece-nos que existe um déficit geral de educação em atividades no mar, no que diz respeito a saber se comportar no ambiente de praia. Como este assunto nos parece que ainda não é abordado com a atenção devida nas escolas brasileiras, nosso objetivo maior é que a educação em atividades no mar possa se tornar parte integrante do currículo escolar nos cursos de Educação Física. Atualmente está em andamento uma versão do projeto para o público infanto-juvenil, que transmita alguns de seus principais elementos de forma clara e direta, e com linguagem apropriada visando despertar a curiosidade e o interesse também dos professores e pais para este assunto.

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