Estado de Natureza

“O estado de natureza como indicador de respeito às individualidades, e da ação pedagógica, formal e precisa, como garantia de melhor eficácia e eficiência do processo de ensino”

Uma motivação a este projeto tem sido a nossa opinião, enquanto professores de Educação Física, de que o professor bem preparado estará melhor posicionado em um processo de ensino que lhe permita intelectualizar, tanto quanto possível, o seu papel em aula.

Os modelos de ensino por nós observados exigem que os instrutores escoltem os alunos iniciantes aonde quer que seja durante as aulas, especialmente dentro d’água. Tais modelos parecem basear-se na satisfação de uma expectativa que assumimos originária de uma ideia equivocada do real significado do esporte, dos reais pré-requisitos que exige, e do tempo que leva para que um iniciante esteja, de fato, surfando com segurança por conta própria. Nestes casos, não somente os padrões motores dos estudantes acabam sujeitos a distorções, mas também os instrutores terminam expostos a uma exaustiva rotina física, o que lhes priva da possibilidade de destinar maiores graus de atenção e energia à observação e análise do desempenho dos estudantes, ademais de provavelmente comprometer a longevidade de suas carreiras no ensino do esporte.

Nosso método almeja conduzir os estudantes por uma viagem através de todo o processo de aprendizagem, abstendo-nos de interferir diretamente e adotando o estado de natureza da sua condição de treinamento como o dispositivo maior de segurança do processo, o conhecimento de cada um evoluindo segundo seu próprio ritmo. Não temos a intenção de acelerar a aprendizagem, concordamos que efeitos colaterais podem ocorrer caso tentemos queimar etapas do processo. (Nota: entendemos o estado de natureza dos estudantes como a condição particular que apresentam, antes de qualquer intervenção pedagógica, quando expostos ao ambiente do surfe.)

Aptidão física e repertório motor evoluirão na medida em que os estudantes forem tomando parte nas atividades propostas. Projetadas para a consecução de propósitos didáticos específicos por meios físicos, as atividades desempenharão um importante papel na educação para o surfe, tanto física quanto intelectual dos estudantes.

Por não receberem assistência física externa, os estudantes estarão constantemente cientes de seus reais limites. Sua segurança resultará de nossa ação em acessar essas limitações e desenvolvermos estratégias para equalizar os níveis de dificuldade ambiental de acordo com as suas possibilidades.

Ao apresentarmo-lhes um novo conteúdo de estudo, deveremos tomar o cuidado de mapear as limitações individuais específicas que se fizerem notáveis. Isto poderá ser logrado fazendo-os experimentar uma versão simplificada das tarefas motoras envolvidas na prática do referido conteúdo, estimando o seu desempenho segundo um conjunto previamente determinado de parâmetros de avaliação.

Seu progresso poderá ser lento, porém consistente. Tomando a teoria da domesticação ambiental em perspectiva, o modelo tradicional das escolinhas de surfe aparenta sofrer de um anacronismo na ordenação de seus conteúdos de ensino. A observação da rotina diária dos instrutores nos sugere que eles dispendem uma quantidade significativa de sua energia no gerenciamento de uma série de riscos ambientais que entram em cena quando os estudantes são expostos às várias atividades de aula, especialmente nos primeiros estágios do aprendizado. Em nossa opinião, a sua fisionomia durante o cumprimento das atividades denuncia o seu desconhecimento de alguns, senão da maioria desses fatores de risco.

Julgamos que os procedimentos tradicionais de segurança que os instrutores adotam podem ser consequenciais a um padrão pedagógico questionável no qual a ordem do processo de ensino-aprendizagem encontra-se baseada. A forma como se inicia o modelo desencadeia um curso de medidas que, em um contexto educacional até poderiam ser interpretadas como ações pedagógicas. De um ponto de vista matemático, no entanto, cremos ser concebível que a dinâmica descrita possa representar senão um conjunto de forças restauradoras evocado para reequilibrar um sistema abalado por algum distúrbio externo. Presumimos ser possível que a abordagem pedagógica corrente subestime a pré-condição de domesticação ambiental que o cenário do surfe impõe àqueles dispostos a adquirir desenvoltura ao ponto em que lidar com os obstáculos do ambiente deixa de ser uma fonte de preocupação, para tornar-se uma oportunidade de evolução. A baixa sensibilidade dos modelos tradicionais à necessidade de familiarização ambiental pode resultar da ênfase excessiva com que se alimenta a expectativa de que os estudantes devam interagir com a prancha no mar já desde o primeiro dia de aula.

Ao direcionarmos a aprendizagem dos estudantes por um conjunto de experiências primeiramente pautadas na domesticação ambiental, a nossa principal estratégia pedagógica de segurança marítima passa a residir na providência do que convencionamos chamar “efeito alargamento de ninho”. Consideramos cada um dos principais elementos naturais que compõem o cenário inicial ‒ considerando antes aqueles de natureza estática, ou menos dinâmicos (calçada, areia, rochas, árvores e vegetação, vento e águas mais calmas e rasas) ‒ e decompomo-los em formas mais simples de favorecer a manifestação e facilitar a vivência das demandas que o surfe nos impinge. Os estudantes devem iniciar a progressão com o estudo isolado de cada elemento ‒ privilegiando sentir e observar as suas possibilidades de interação ‒ para que, em um segundo momento, o estudo composto dos elementos de forma combinada possa ser conduzido com a mínima distração do foco na coordenação dos elementos. (Nota: didaticamente falando, estaremos nos referindo à composição de uma atividade coordenativa de vários elementos como um “estudo de caso”, onde nossa principal preocupação será a de reduzir a interferência ambiental a um mínimo que não atrapalhe a transmissão de conteúdos futuros de ensino.)

Assumimos uma perspectiva educacional marítima preventiva. As práticas didáticas nas primeiras unidades levarão a uma gradual conscientização dos perigos ambientais à nossa volta, e também ao aperfeiçoamento de habilidades fundamentais de natação marítima, promovendo a familiarização com o meio concomitantemente ao refinamento dos componentes de aptidão física e repertório motor.

À medida que os estudantes desenvolvem uma base de intimidade ambiental, as ações pedagógicas podem naturalmente evoluir para assuntos mais voltados ao surfe, redirecionando o foco didático para elementos e casos gradativamente mais instáveis e dinâmicos. Análise e interação com as ondas ganham ênfase, e a natação marítima se desdobra em surfe de peito (bodysurf). A seguir, introduzimos o uso da prancha, e as práticas tendem a ficar cada vez mais específicas com o surfe, propriamente dito.

Portanto, em nosso modelo a progressão pedagógica é considerada sob uma ótica tridimensional: (1) estimulação motora e fisiológica, continuum geral –> específica; (2) exploração ambiental, continuum estática –> dinâmica; (3) exploração ambiental, continuum elemento –> estudo de caso.

“Efeito alargamento de ninho” significa que cada atividade didática precisa ser projetada não somente de acordo com diretrizes pedagógicas, mas também considerando essa ótica tridimensional quando da identificação das restrições específicas dos estudantes para a atividade em questão, permitindo-nos assim estimar o limiar de dificuldade do exercício em torno do qual devemos mirar o desempenho. A manutenção desse limiar deve ser provida e sustentada pelo gerenciamento de fatores ambientais intervenientes. Isto permite que o planejamento pedagógico contemple o engajamento nas atividades independentemente das condições do mar, enriquecendo o processo de familiarização com o meio.

O gerenciamento do ambiente requer, em um cenário inicial, barreiras bem definidas para a delimitação do perímetro de ação de cada atividade. Na razão em que os estudantes vão se tornando mais familiarizados com as possibilidades ao seu redor, a rigidez na delimitação das barreiras tende a ir perdendo importância. Sem interferência externa, os estudantes têm a chance de se observar, compreendendo as suas reais forças e fraquezas, e buscando ‒ pela orientação dos professores ‒ possíveis soluções para superação das diversas situações com as quais se deparam. Enquanto o aprendizado avança, as barreiras de segurança proporcionalmente vão-se deteriorando.

Ao fim de nossa instrução, intencionamos que os estudantes tenham tomado ciência do processo de aprendizagem a ser seguido para o aperfeiçoamento no surfe, dos requisitos que o esporte demanda, e do real risco que representa, tendo desenvolvido um olhar crítico sobre os principais perigos envolvidos, e uma base de conhecimento sobre as habilidades e táticas necessárias à minimização desses riscos. Mais importante, os estudantes terão aprendido a não subestimar o poder do oceano, não importando o quão bem eles possam ter se saído no curso.

Levando em conta que os resultados de aprendizagem podem variar drasticamente entre os estudantes ‒ devido a uma série de restrições individuais naturais, tais como genética, repertório motor precedente, experiência prática esportiva, nível de aptidão física e fatores sócio-econômico-culturais, por exemplo ‒, nosso método foi projetado para nortear a possibilidade de se manter a continuidade na prática e na evolução do esporte, em um estágio avançado não-supervisionado, após um período formal introdutório de aprendizagem supervisionada.

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