Segurança marítima na praia da Barra da Tijuca

Prezados Amigos,

Nossa entrevista de hoje é com o Cabo Bombeiro Militar Guarda-vidas Jonatas, também conhecido como Cabo Jonatas, um dos guarda-vidas responsáveis pela segurança na praia da Barra da Tijuca.

O Cabo Jonatas está sempre alerta na observação dos banhistas na Barra da Tijuca.

O Cabo Jonatas está sempre alerta na observação dos banhistas na Barra da Tijuca.

Nosso objetivo é apresentar o ambiente da praia sob os olhos de um profissional perito nos mares da orla carioca, e que, entre uma e outra missão de salvamento, também pratica o Surfe de Peito e o Surfe de pranchão.

Observem como o conhecimento dos Bombeiros Guarda-vidas do CBMERJ pode nos ajudar a buscar atitudes e posturas mais seguras dentro e fora d’água, e emocionem-se conosco com os vibrantes relatos a seguir:

***

SurfingPedagogy.com: CARO JONATAS, HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ É GUARDA-VIDAS? COMO FOI QUE SE INTERESSOU PELA PROFISSÃO, E VOCÊ GOSTA DO QUE FAZ?

Jonatas: Sou guarda-vidas há 6 anos, e o meu interesse pela profissão surgiu em 2006, quando fiz o curso de guardião de piscina do CBMERJ.

Após o curso eu comecei a dar apoio aos guarda-vidas aqui nos postos de salvamento da praia da Barra da Tijuca e, aos poucos, foi crescendo a minha admiração e o meu desejo em me juntar a eles.

Eu amo o que faço!

SurfingPedagogy.com: COMO É O DIA-A-DIA DE VOCÊS NA PRAIA, E QUAIS AS SUAS ATRIBUIÇÕES?

Jonatas: Primeiramente nos apresentamos no quartel às 07:00h, para depois nos dirigirmos para os nossos postos. Na sequência, sinalizamos as valas e praticamos a nossa atividade física: corrida, natação, surfe… sempre de olho na nossa área de atuação.

A nossa principal atribuição é a salvaguarda de pessoas. Inclusive no asfalto. Além de guarda-vidas, somos bombeiros, por isso iremos prestar socorro em qualquer acidente que aconteça próximo de nós. Claro que a nossa função principal é a água, por isso nunca podemos abandoná-la. Se estivermos a sós, solicitaremos o apoio necessário para o acidente em questão.

Outras atribuições, que a população costuma pensar que são nossas, na verdade não são, como cachorro, frescobol, pipa e crianças perdidas. Porém – mais no caso das crianças perdidas -, nós também acabamos auxiliando.

Sempre atento às pessoas na praia, o Cabo Jonatas procura desempenhar o seu trabalho sempre com empenho máximo.

Jonatas procura desempenhar o seu trabalho com empenho máximo, auxiliando a todos da melhor forma possível.

SurfingPedagogy.com: QUAIS OS MAIORES REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA SER UM GUARDA-VIDAS?

Jonatas: Além de ser preciso saber nadar e correr muito bem, o primordial que eu considero é ter um bom psicológico, ter o lado psicológico preparado. Porque nos socorros mais difíceis do nosso dia-a-dia precisamos manter a calma, e também transmitir essa calma para as vítimas – por mais que esteja aquele pior cenário, com uma porção de gente se afogando ao mesmo tempo, gritando que vai morrer. Temos que estar bem de mente, e bem fisicamente também, para manter a calma e tirar aquelas pessoas: pode ser um, podem ser cinco afogados (como tem acontecido bastante).

SurfingPedagogy.com: QUAIS AS PRINCIPAIS CAUSAS DOS AFOGAMENTOS, E EXISTE UM PERFIL DE RISCO?

Jonatas: Os que mais se afogam costumam ser adolescentes, com idade por volta dos 14 aos 16 anos, do sexo masculino. Mas qualquer pessoa pode vir a se afogar, se cair na vala e não tiver a orientação sobre o que fazer.

Uma grande causa para os afogamentos é a falta de conscientização dos perigos da praia.

A primeira coisa que se deveria fazer ao chegar à praia seria visualizar as nossas bandeiras e placas de perigo. Porém, quando vêm à praia, muitas pessoas costumam pensar só no lado da diversão, esquecendo-se que ali existem riscos. E aí acabam negligenciando a nossa sinalização.

É comum que escolham entrar no mar onde ‘parece estar mais tranquilo’. No entanto, onde costuma parecer mais tranquilo é justamente na vala, porque aí não quebra onda, e por ser mais funda às vezes os banhistas a ela se referem com frases do tipo “Ah, aqui tem uma ‘piscininha’, vamos entrar!”, e se afogam. Pode haver 10 bandeiras, mas eles não enxergam e entram assim mesmo.

Para mim, a principal causa é essa: a falta de conscientização.

Enquanto realizávamos a sua entrevista...

Enquanto realizávamos a entrevista…

... Jonatas avistou um grupo em apuros na vala e partiu...

Jonatas avistou um grupo em apuros na vala e, juntamente com o seu companheiro daquele dia, rapidamente partiram para o resgate!

... Mesmo com as ondas pequenas, e o mar relativamente calmo, Jonatas alerta para não descuidarmos da sua sinalização.

Mesmo com as ondas pequenas, e o mar relativamente calmo, Jonatas alerta para não descuidarmos nunca da sinalização guarda-vidas.

SurfingPedagogy.com: JÁ EM RELAÇÃO AO SURFE, COMO É A RELAÇÃO DOS GUARDA-VIDAS COM O SURFE DE QUILHA E O SURFE DE PEITO?

Jonatas: Não são todos os guarda-vidas que surfam de prancha. Na verdade, a essência do GMar é o Surfe de Peito, pelo maior contato que ele proporciona com a onda, e por não necessitar de prancha.

A maioria de nós surfa de peito, mas nem sempre tem onda para Peito, e aí o pessoal pega a prancha e vai surfar. Mas sempre que o mar fica um pouquinho maior, até quem pega de prancha, todo mundo vai pro mar, de nadadeira e pegar onda de peito.

Como eu falei, a essência do GMar é o Surfe de Peito. Além de o praticarmos por diversão, ele também nos ajuda. Porque com o Surfe de Peito conseguimos sentir a corrente, ter uma leitura melhor por onde iremos puxar a vítima, o que vamos fazer com ela, e inclusive como vamos passar das ondas com a vítima. É bem diferente da prancha, e para nós essa diferença é muito importante.

SurfingPedagogy.com: OS SURFISTAS, EM GERAL, LHE PARECEM BONS CONHECEDORES DO MAR? COMO TEM SIDO ESSA RELAÇÃO COM TANTOS NOVOS ADEPTOS DO ESPORTE ULTIMAMENTE? VOCÊ ACHA QUE O FORMATO TRADICIONAL DAS ESCOLINHAS DE SURFE PREPARA OS ALUNOS COM UMA BASE SUFICIENTE PARA LIDAR COM OS PERIGOS DA ARREBENTAÇÃO?

Jonatas: Receio que nem sempre saibam como se comportar numa situação de risco – como no caso de perder a prancha, por exemplo. Acho importante a noção de descobrir sozinho o tempo da onda, o tempo da remada na onda. E acho também que a preocupação de surfar a onda requer que antes a pessoa já saiba remar.

Jonatas ressalta a importância do Surfe de Peito como forma de se conhecer melhor os elementos da arrebentação, e se preocupa com o nível de consciência de muitos que se aventuram nas ondas hoje em dia.

Jonatas ressalta a importância do Surfe de Peito como forma de se conhecer melhor os elementos da arrebentação, e se preocupa com o nível de consciência de muitos que hoje se aventuram no mar.

SurfingPedagogy.com: QUAL ORIENTAÇÃO VOCÊ COSTUMA DAR ÀS PESSOAS SOBRE SEGURANÇA NO MAR?

Jonatas: Na verdade, ao colocar as placas já estamos dando uma orientação. O que fazemos, na sequência, é complementar essa informação quando precisamos abordar uma pessoa na vala, explicando o que é uma corrente de retorno e indicando o banco.

A vala quase sempre é mais forte do que a pessoa que nada. Caiu na vala, a primeira coisa a fazer é manter a calma, boiar, e prestar atenção no sentido da corrente: todo mundo sabe que “Caiu na vala, nada pro lado!” – ok, mas para que lado? Às vezes você nada para o lado direito, e a corrente está favorecendo o lado esquerdo, ou vice-versa.

Mas o principal mesmo é, assim que chegar na praia, se possível procurar um guarda-vidas e pedir uma orientação a ele.

Antes de iniciarmos o nosso trabalho, em todas as manhãs nós procuramos cair no mar, entrar na vala para sentirmos a corrente e, na hora do socorro, já sabermos o que fazer. A mesma coisa deveria acontecer na escolinha: o aluno deveria ir com o instrutor na vala, sem prancha, sem nada, para sentir como a vala puxa, e como ele teria que sair.

SurfingPedagogy.com: QUANTOS RESGATES UM GUARDA-VIDAS CHEGA A FAZER POR DIA? E COMO VOCÊ SE SENTE SALVANDO VIDAS?

Jonatas: Em época de verão – principalmente entre dezembro e fevereiro, março – , tem dia em que cada um de nós chega a fazer 60, 80, até 100 socorros, dependendo do posto.

Ficamos em alerta desde o instante em que chegamos no posto, de manhã cedo, até muitas vezes depois da hora de irmos embora. Já fiquei muitas vezes fazendo socorros à noite pois, como já expliquei, as pessoas ignoram a sinalização.

Quando o mar está de ressaca, ele intimida os banhistas e, nessa condição, só uma ou outra pessoa se arrisca e, em geral, ocorrem poucos socorros. Por outro lado, o maior índice de afogamentos é no mar de até meio metro e água quente – que, aliás, tem acontecido bastante neste último verão.

Jonatas ama a sua profissão e, ciente da importância do seu papel na areia, procura sempre fazer tudo o que estiver ao seu alcance para obter êxito em todos os seus socorros.

Ciente de que representa a última linha de defesa na segurança de todos na praia, Jonatas se esforça para que ninguém precise da sua ajuda. Entretanto, quando uma emergência inevitavelmente ocorre, ele está pronto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para salvar vidas.

Quando salvamos as pessoas, são pessoas que nem conhecemos, não são nem nossos familiares. Às vezes apitamos para uma pessoa, alertando para ela sair de uma situação perigosa, e mesmo assim essa pessoa continua entrando no mar e se afoga – mesmo tendo recebido repetidos avisos nossos –, que é quando entramos em ação e realizamos o socorro mesmo assim, porque nós temos o prazer de salvar.

SurfingPedagogy.com: COMO VOCÊS SE PREPARAM PARA ENFRENTAR O MAR “A QUALQUER HORA, EM QUALQUER TEMPO, COM QUALQUER MAR”? PODERIA NOS FALAR UM POUCO SOBRE A SUA FORMAÇÃO?

Jonatas: Você só vai aprender sobre o mar sentindo na pele, entrando nele, tendo contato com ele. E é na dificuldade que mais aprendemos. Por isso, nós nos preparamos para o mar ‘caindo’ nele, ‘apanhando’ dele.

Recebemos toda orientação sobre vala e banco de areia, mas na hora é totalmente diferente. Especialmente quando nos habituamos a mar de ressaca – e quando falamos em mar de ressaca, não estou exagerando, é mar de ressaca mesmo! Da areia, identificar valas e bancos de areia pode até ser fácil, mas olhando lá de dentro – inclusive sem a experiência que acumulamos posteriormente ao longo dos nossos anos de trabalho – já é bem difícil.

Além da parte teórica e prática de Primeiros Socorros, na parte prática de mar o ritmo é mesmo bastante intenso já desde o princípio da nossa formação. De início todos precisam já saber nadar e correr muito bem.

Uma coisa é estudar, ler sobre o mar. Mas ter o CONTATO que o guarda-vidas tem é fundamental para realmente aprender e estar preparado.

Jonatas nos aconselha a não subestimarmos o mar. Para ele, é necessário muito tempo de contato com a praia para o alcance de um imprescindível bom senso sobre os seus riscos.

Jonatas aconselha a não subestimar o mar. Para ele, é necessário muito tempo de contato com a praia para o alcance de um imprescindível bom senso sobre os seus riscos.

SurfingPedagogy.com: CARO JONATAS, MUITO OBRIGADO PELO TEMPO E ATENÇÃO. DESEJAMOS-LHE SUCESSO, E APROVEITAMOS PARA PARABENIZÁ-LO POR TODAS AS PESSOAS QUE JÁ SALVOU, E QUE AINDA SALVARÁ. GOSTARIA DE DEIXAR UMA MENSAGEM DE DESPEDIDA PARA OS NOSSOS LEITORES?

Jonatas: Eu só queria que, não só a população mas a mídia também, ajudasse na conscientização dos perigos da praia. A praia é divertida, você se distrai, você surfa, mas o perigo existe, não podemos esquecer disso.

Então o ideal seria as pessoas saberem o mínimo: chegar na praia, procurar as bandeiras e respeitá-las (“Ah, aqui é perigoso; vamos entrar após a bandeira!”).

Queria agradecer a todos os surfistas que já me ajudaram em diversos socorros – sempre muito prestativos os nossos amigos surfistas –, e agradecer também a um grande amigo, o Prof. Bruno Castello – também conhecido como “Madruga” – que, na época do curso de guardião foi a primeira pessoa que me ensinou sobre o mar, e isso me ajudou muito depois em minha trajetória; sou grato a ele.

Bom trabalho Cabo Jonatas, sempre alerta em sua missão! E quem for à praia, já sabe: vamos seguir sempre os conselhos dos Guarda-vidas!

Bom trabalho Cabo Jonatas, sempre alerta em sua missão! E quem for à praia, já sabe: vamos seguir sempre os conselhos dos Guarda-vidas!

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4 thoughts on “Segurança marítima na praia da Barra da Tijuca

  1. Welington

    Parabéns pela matéria e com este ilustre Cabo Jonas, o qual tive o prazer de conhecer. Pessoa dedicada a sua profissão e de grande caráter e de muita personalidade. Boa sorte! Abs.

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